domingo, 3 de junho de 2007

O que fazer em caso de saudade?


"O que fazer em caso de incêndio?" é um dos melhores filmes europeus que assisti ano passado no melhor sofá do mundo. Alguns outros foram "Os Sonhadores" (cuja trilha sonora também muito me agrada) e "Edukators" (cujo final gerou muita discussão e eu ainda gosto mais da minha interpretação). Três filmes que valem o aluguel ou a compra nessa época em que comprar DVDs às vezes é mais em conta do que alugar. O primeiro é sobre um grupo de anarquistas que fazem um vídeo - "O que fazer em caso de incêndio?" - que funciona como um manual sobre suas estratégias e táticas anarquistas. Um passo a passo. Excelente! Quem nunca desejou que algumas pessoas ou situações viessem com manual de instruções? Daqueles completinhos que explicam o funcionamento peça por peça e também apresentam sugestões sobre o que fazer em momentos de crise e angústia em que nada parece funcionar. O que fazer se a luzinha verde piscar intermitentemente? 1. Verifique a colocação das pilhas. 2. Desligue e ligue novamente. 3. ...

Certa vez perguntei: "O que fazer em caso de saudade?". Eu não oferecia nem esperava um manual. Mas recebi resposta inspirada em Fagner e sem maiores orientações sobre como proceder: "Saudade já tem nome de mulher". Aí a saudade foi ficando, indo e voltando, indo e voltando. Chata mesmo, como pernilongo na praia em noite de verão em que se dorme com a janela aberta. Alguém bem que podia escrever esse manual: "O que fazer em caso de saudade?". Algumas idéias:

1. Faça um blog.
Se não é possível matar a saudade, de alguma forma é preciso extravasá-la e o blog pode ser útil àqueles que não sabem cantar ou pintar. Como diria
Luiz Gonzaga: "Mas ninguém pode dizer que vivo triste a chorar, saudade o meu remédio é..." escrever! Conversa-se com uma audiência indeterminada (por vezes mesmo inexistente) poupando seu amigos que já não agüentam mais o tópico da saudade e ainda pode, por ventura, funcionar como veículo de interlocução para com o próprio objeto da saudade.

2. Faça atividades físicas.
Qualquer atividade que seja prazerosa e permita ocupar a mente, preocupando-a com a coordenação motora necessária para executar os movimentos. Nada como um pouco de beta-endorfina para melhorar a auto-estima e a disposição, esquecendo a saudade.

3. Coma chocolate todos os dias.
Sem exageros, lógico. Uma pitada de chocolate diariamente adoça a vida e supre algumas carências deixadas pela saudade.


4. Saia muito com TODOS os seus amigos.
Procure seus amigos para fazer qualquer tipo de programa que tenha vontade e aceite os convites para aqueles que não dão tanta vontade assim. Com amigos dificilmente algo não será divertido. Aproveite a oportunidade e o tempo disponível para ver muito os amigos mais próximos, rever os distantes e conhecer novos. Lugares diferentes e pessoas diferentes, lugares iguais e pessoas iguais, lugares diferentes e pessoas iguais, lugares iguais e pessoas diferentes. Tudo fará bem para alegrar o espírito e esquecer que a saudade existe. Procure os solteiros, os casados e os que namoram e saia até mesmo com apenas um casal (geralmente programas culturais funcionam melhor nesse caso). Esteja apenas preparado para ouvir alguns 'nãos' às vezes e mantenha atualizada uma lista de bons filmes que deseja assistir para aqueles momentos sem pique de ir ao cinema sozinho num sábado à noite em que os celulares parecem não funcionar.

5. Descubra.
Um novo hobby, novos interesses, novos lugares, novas pessoas, novos prazeres, um novo você. O espaço deixado pela ausência pode e deve ser preenchido e certamente há um novo tempo disponível para ir atrás de novidades ou mesmo retomar antigos prazeres que andavam meio deixados de lado.

6. Não pense.
Deixe o sofrimento por reminiscências para as histéricas de Freud. Ocupe o tempo e a cabeça com atividades mais produtivas sempre que possível e pare pouco. Como diria minha sábia mãezinha: "Não posso parar. Se eu paro, eu penso. Se eu penso, eu choro." Pensar e lembrar alimenta a saudade sofrida e melancólica que não precisa crescer mais.

7. Deixe doer até anestesiar.
Saudade dói. Muito. Mas tem que deixar doer para parecer que passou. Quando parece que passou é porque anestesiou. Às vezes o efeito anestésico passa por alguns momentos e a dor volta primeiro melancolicamente e depois lancinante até anestesiar novamente. Deixar doer permite à anestesia acontecer e pode ser que algum dia a saudade nem seja mais percebida ou sentida.

"Obrigo-me a chorar para provar a mim mesmo que minha dor não é uma ilusão: as lágrimas são signos, não expressões. Por minhas lágrimas, conto uma história, produzo um mito da dor, e assim posso acomodar-me a ela: posso conviver com ela, porque, chorando dou-me um interlocutor enfático que recolhe a mais "verdadeira" das mensagens, a de meu corpo, não a de minha língua: 'Palavras, que são palavras? Uma lágrima dirá bem mais'." (Roland Barthes em 'fragmentos de um discurso amoroso').

8. (...) - to be continued

O manual até pode ajudar um pouco, mas, no caso dessa saudade, uma pergunta ficará no ar e talvez nem mesmo o fabricante saiba responder de maneira satisfatória:

Por que inventaram junto e depois saíram correndo?

(Cá entre nós, minha saudade dói mais no melhor sofá do mundo - e na melhor cama do mundo que teve ao seu lado certo par de brincos, esquecido... para sempre.)

Um comentário:

Catarina Goytacaz disse...

Querida!
Adorei esse manual! Além de ser otima recomendação, a forma leve nos faz dar boas risadas!

Vi o comentário que deixou no meu blog. Pois é, realmente faz tempo que não escrevo. Estava com uma vida de cão e agora estou retomando as coisas aos poucos.
Em breve escreverei alguns textinhos novos, faça uma visitinha quando puder. Ah, continue escrevendo que você está indo muuuuito bem!
Parabéns!
Beijos